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Modelo Padrão e o Universo Primordial: Assimetria matéria-antimatéria

    A assimetria entre a matéria e antimatéria é um das questões mais intrigantes do nosso Universo. Grande parte da matéria conhecida no universo é constituida de bárions, não havendo praticamente nenhum antibárion. Esta assimetria é intrigante pois todos os processos observados experimentalmente até hoje conservam o número bariônico B, ou seja, produzem bárions e antibárions em quantidades iguais.

    Enquanto o número bariônico é conservado no Modelo Padrão, alguns efeitos perturbativos o violam às altas temperaturas. Deste modo o Modelo Padrão pode explicar a assimetria bariônica apenas se alguma parte da teoria for modificada dando uma clara indicação de uma nova física está para surgir próxima e acima da escala da força eletrofraca.

    Mas como sabemos que o Universo não é simétrico com relação à matéria e antimatéria?

    Isto pode ser respondido do seguinte modo: A Lua é composta de matéria, pois o ser humano já esteve lá e não sofreu aniquilação; O vento solar, partículas emitidas pelo Sol, são matéria pois interagiram com a matéria dos laboratórios na Terra sem sofrer aniquilação; Já foram enviados várias sondas aos diversos planetas do Sistema Solar e seu funcionamento demonstra que são constituídos de matéria; Os raios cósmicos trazem material de várias partes da Via-Láctea e foi observado que a relação de bárions e antibárions é da ordem de 104 para 1; Se houvessem Galáxias de antimatéria, então seria possível observar emissões gama advindas de aniquilações. A sua ausência é uma forte evidência de que, pelo menos, o Grupo Local é constituído de matéria. Em uma escala maior, pouco sabemos. Entretanto existe um problema chamado “catástrofe de aniquilação” que provavelmente elimina a possibilidade de existir uma simetria entre matéria e antimatéria. Essencialmente, a causalidade proíbe a separação de grandes quantidades de matéria e antimatéria a uma velocidade tal que coexistam sem que se aniquilem entre si. Deste modo, podemos concluir que Universo é dominado pela matéria.

    Assim, é provável que a natureza tenha, de algum modo, favorecido a criação de matéria em detrimento da antimatéria no Big Bang indicando que ela trata a matéria e antimatéria diferentemente. Com isto, seria possível que uma pequena fração de matéria criada inicialmente tenha sobrevivido e formado o Universo que conhecemos.

    Em 1967, Andrei Sakharov enumerou três condições necessárias para a ocorrência da bariogênese:

1- Violação da conservação do número bariônico.

Se houvesse tal conservação haveria simetria entre matéria e antimatéria. Uma grande implicação da violação da conservação do número bariônico é o decaimento do próton.

A estimativa para sua ocorrência é da ordem de 1032 anos, mas apesar de vários experimentos estarem atualmente em andamento, nenhuma ocorrência foi observada.

Assim, o Modelo Padrão é alterado de tal modo que os efeitos quânticos permitam que o Universo utilize a energia do vácuo, dentro dos limites do princípio de incerteza, para que haja a violação da conservação do número bariônico. Entretanto, tal violação é fortemente suprimida a energias abaixo de 10 TeV o que, atualmente, dificulta a comprovação experimental.

2- Violação C e CP.

Mesmo na presença de reações com a violação do número bariônico, sem a preferência de matéria sobre a antimatéria, estas reações se dariam em ambas as direções deixando pouca matéria em excesso. Tal preferência pôde primeiramente ser demonstrada experimentalmente observando os decaimentos das partículas káon (méson composto de quark down e antiquark strange) e antikáon onde foi constatado a violação CP.

3- Não-equilíbrio termodinâmico.

O esfriamento do Big Bang ocorreu fora do equilíbrio térmico, ou seja, partes do Universo se resfriaram mais rapidamente que em outras proporcionando condições para a assimetria entre a matéria e a antimatéria. Ou seja, a simetria CPT garante que massas iguais de bárions e antibárions levam necessariamente a reações que corrigem qualquer assimetria entre matéria e antimatéria. Assim sendo, deve existir uma violação da simetria CPT.

    Modelo Padrão admite que exista a violação de CP. Há indícios, entretanto, de que o grau máximo desta violação nesse Modelo não seja grande o suficiente para explicar o desequilíbrio entre matéria e antimatéria. Em outras palavras, suspeita-se que o Modelo Padrão preveja menos matéria do que aquela que é observada no universo. E isso, claro, poderia criar certas dificuldades para o Modelo.

    Assim, os experimentos devem mostrar se o Modelo Padrão deve ser corrigido ou deixado de lado, para dar lugar a outro modelo. E nos permitir entender uma questão essencial para a compreensão das leis da natureza e da existência do universo: por que a natureza prefere a matéria à antimatéria?

Escrito por Norberto Kawakami em 26 abril 2006
Nos Temas: Cosmologia | 3 comentários

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Nucleossíntese Primordial

     Três minutos após o Big Bang, o universo tinha uma temperatura em torno de 1E9K (1.000.000.000 kelvin). Neste período, ele consistia praticamente de nêutrons livres e fótons em equilíbrio térmico. Entretanto sabe-se que um nêutron livre tem vida média de cerca de 900 segundos antes de decair gerando um próton, um elétron e um anti-neutrino do elétron.

     Deste modo, rapidamente o universo ficou cheio de nêutrons e prótons. Como a pressão era enorme, nêutrons e prótons podiam formar núcleos de deutério e trítio (isótopos do hidrogênio), o hélio-3 e o hélio-4 (isótopos do hélio, sendo o último a partícula alfa que tem grande estabilidade). Além destas reações, também podia ocorrer uma que formava um núcleo de lítio, com 3 prótons. Mas, sua freqüência era baixíssima, se comparada com as quatro anteriores. Todas estas reações ocorreram com liberação de energia sob forma de radiação.

Nucleossîtese    A produção de outros núcleos não se deu neste instante (como se sabe, a nucleossíntese restante vem das estrelas), pois a formação de núcleos com 5 nucleons é altamente instável e não sobrevive.

    A partir destas reações é possível saber quanto hélio, deutério e trítio devem ter se formado, desde que se saiba quantos nêutrons e prótons estavam disponíveis naquele instante. Por outro lado, este número é muito difícil de ser estimado mas ainda assim, os números relativos dos núcleos leves podem ser facilmente calculados através do Modelo Padrão. Deste modo, o modelo do Big Bang faz uma previsão: para cada 10 núcleos de hidrogênio deve haver um núcleo de hélio no Universo. Em termos de massa, isso equivale a dizer que cerca de 25% da massa do universo deve ser de hélio.

    Esta previsão é bastante restritiva, mas mesmo assim, a abundância primordial de 4He e dos outros núcleos leves foram determinados experimentalmente por meio de diversas técnicas e concordaram extremamente com os cálculos teóricos. Tal concordância é considerada como uma das mais fortes evidências da robustez do Modelo Padrão e do Big Bang.

     Praticamente todo o hélio que há no Universo foi gerado no Big Bang, mas parte do trítio e do deutério que foram gerados nele foram consumidos no interior das estrelas. Realmente, a espectroscopia tem mostrado que há deutério nas estrelas jovens e quase nenhum nas mais velhas de modo que este ajuste foi levado em conta para a determinação da abundância destes elementos leves.

Escrito por Norberto Kawakami em 24 abril 2006
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